• Roberto Francisco Mennuti

Prevenção dos ativos intangíveis

Assim como os bens tangíveis, a segurança contra incêndio também deve focar os bens intangíveis.

O conjunto de valores de uma empresa envolve seus ativos tangíveis, ou seja, os bens concretos que podem ser tocados; os intangíveis, mais difíceis de serem vistos; além, é lógico, do maior de todos, o humano. E é dentro desse contexto que a segurança contra incêndio tem o seu propósito, preservar vidas e patrimônios.


Mas será que na hora de se pensar a segurança contra incêndio todos os ativos têm o mesmo peso e são avaliados igualmente os prejuízos que a perda dos mesmos causará à empresa em caso de sinistro?



Preservar a vida dos ocupantes de uma edificação, os imóveis, as máquinas, os estoques, isto é, capital humano e o físico/financeiro, que são os tangíveis, muito provavelmente é a primeira preocupação em uma análise de risco. No entanto, os ativos intangíveis, ou seja, marcas, qualidades administrativa, estratégia, capacidade de se comunicar com o mercado e a sociedade, reputação, capacidade de inovação, entre outros, também precisam ser mensurados, pois podem ser fortemente abalados em um sinistro e, assim colocar em risco a perenidade do negócio.


Hoje, um dos grandes diferenciais entre as empresas mais competitivas é justamente a valorização dos bem intangíveis, inclusive, especialistas em mercado chegam a coloca-los como responsáveis por 80% do valor de uma empresa, bem diferente do passado, quando os ativos tangíveis significavam 90%.


Desta forma, os ativos intangíveis vêm se sobrepondo aos tangíveis em valor, principalmente em razão das mudanças comerciais. Imagem, reputação, carteira de clientes, flexibilidade operacional, canais de distribuição, domínio de conhecimentos, marcas, patentes etc. passam a ter um peso maior no mercado.


Nesse cenário, apesar de não serem palpáveis, os ativos intangíveis também devem ser motivo de atenção em um plano de prevenção e combate a incêndio, pois a imagem a reputação de uma empresa em caso de uma ocorrência podem ser abaladas ou mesmo destruídas.


Segundo Ana Rosa, diretora da PwC Brasil e especialista em compliance, o incêndio é um dos gatilhos da gestão de crises, afinal traz uma série de repercussões diretas relacionadas às perdas financeiras e fatalidades. Mas existe uma série de outras consequências que são as não tangíveis ou não facilmente tangíveis e, atualmente, é possível medir quanto se perde de Market share quando há uma redução na produção imposta por um incêndio.


Apesar de esses prejuízos serem mensuráveis, de acordo com a diretora da PwC, ainda é difícil fazer com que os executivos tenham comprometimento direto com o tema a ponto de investirem em medidas preventivas, em sistemas e treinamentos. O que se percebe, hoje, é que, apesar das exigências legais em relação à prevenção, poucas empresas estão realmente bem estruturadas, com planos abrangentes e conectadas aos riscos. Observo que muitas contratam planos de gaveta ou a baixos custos, portanto, não têm um verdadeiro comprometimento com a prevenção.


Ana Rosa ainda comenta que já foi, por exemplo, a simulados de abandono com o envolvimento, inclusive, da comunidade do entorno, pois em uma emergência poderá ser afetada, e pôde verificar que o número de brigadistas não condizia com o número de funcionários das empresas.


PREJUÍZOS INTANGÍVEIS


Para mensurar os prejuízos que a perda dos ativos intangíveis pode gerar com a ocorrência de incêndios e outras emergências, é necessário estabelecer um programa tendo como primeiro passo a avaliação de riscos e, assim, entender a exposição aos mesmos e o impacto que podem causar nos negócios. Essa avaliação dá ideia com que realmente a empresa deve se preocupar, o que é importante, pois conforme Ana Rosa nenhuma empresa tem recursos para se preocupar com 100% dos eventos, sendo assim, deve focar naqueles com maior frequência e a maiores chances de acontecer. Já em um segundo passo, por meio de análises de documentação e entrevistas, é possível entender a visão do executivo, do gestor sobre esses ativos.


A diretora da PwC cita o exemplo de uma empresa fabril, que deixa de produzir uma quantidade grande de unidades de determinado produto por conta de um incêndio em uma esteira. Nesse caso, contabiliza-se o prejuízo não relacionado a perda das unidades não produzidas, mas também várias outras questões como a repercussão do incêndio no mercado, afinal pode vazar que ele ocorreu por falta de um sistema, de manutenção, de governança ou de confiabilidade.


Esta é questão muito importante, pois o produto produzido pode ter um viés ou mesmo passar a mensagem de confiabilidade e a ocorrência do incêndio pode abalar essa imagem, pois o ocorrido vai de encontro com aquilo que a empresa vende para seus clientes. “Se você não se preocupa com o seu colaborador, principal ativo, não se preocupa com a qualidade ou com os danos ambientais que pode causar, não tem propriedade para vender uma imagem de confiabilidade ao mercado, diz Ana Rosa.”


E muitas empresas, ainda, não despertaram para a questão de que, assim como os ativos tangíveis, os intangíveis podem ser perdidos em poucos minutos e jamais recuperados. Para a diretora da PwC, o nível de maturidade ainda é muito baixo em relação à prevenção de incêndios e a outras emergências. “Algumas empresas têm algum planejamento, mas quando são colocados à prova, como em um simulado, é possível perceber que foi feito apenas para constar, para uma possível fiscalização, não fazendo parte de uma prática bem estruturada de análise de riscos e, isso, infelizmente, é porque os executivos ou talvez os acionistas não tenham a visibilidade real da questão.”


Ana Rosa enfatiza que o ser humano, em seu DNA, não tem percepção de crise, sempre busca estatísticas e dados históricos para mostrar que determinado evento não aconteceu nos últimos dez anos, por exemplo, pois acredita que as chances de acontecer são mínimas. Com isso, não se prepara para uma ocorrência e corre o risco de perder tudo que levou anos para construir.


Publicado pelo Disaster Recovery Institute, estudo da Universidade de Wisconsin, nos Estados Unidos, mostra que 43% das empresas vítimas de um desastre nunca mais abre e só 29% tentam retornar aos negócios, mesmo assim, os impactos causados na reputação e encargos com passivos pelos danos causados fazem com que não permaneçam no mercado, fechando as portas em até dois anos.


Para a diretora da PwC, o executivo precisa ser o patrocinador da prevenção e o comum é ela ser trabalhada apenas no nível operacional.


“Acredito que o executivo precisa entender sua relevância por meio do mapeamento de impacto dos ativos tangíveis e intangíveis. A exposição aos riscos precisa ser demonstrada claramente para que realmente entenda seus prejuízos. Afinal, colocar uma marca no topo do mercado leva anos e muito investimento em marketing, e isso precisa ser contabilizado.”

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