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Segurança Contra Incêndios em Hotéis

Segurança contra incêndio em hotéis é um assunto desafiante para profissionais de proteção contra incêndio. Como garantir níveis de segurança apropriados, de forma que hóspedes dormindo possam ser alertados sobre um incêndio e, quando alertados, possam tomar a decisões corretas, estando em um ambiente pouco familiar onde provavelmente se sentirão confusos?

Temas como a compartimentação, construção resistente ao fogo, distância de deslocamento horizontal, limitações no tamanho dos prédios, controle de fumaça, pressurização da escada, até a detecção e extinção automática do incêndio, têm sido discutidos e estudados nos Estados Unidos e na Europa.

O mais importante avanços dos últimos anos, na Europa e nos EUA e, por conseqüência, em muitos lugares ao redor do mundo, é o consenso de que a abordagem mais viável e efetiva na segurança contra incêndios em quartos de hotéis é a detecção de fumaça combianada com a proteção por chuveiros automáticos. No Japão, uma lei federal exige chuveiros automáticos em todas as recepções de edifícios públicos novos e antigos, assim como em hotéis¹. Na Austrália, existem exigências similares para edifícios novos, assim como no Canadá, Hong Kong, Panamá e Nova Zelândia. Depois dos grandes incêndios em hotéis nos Estados Unidos, nos anos 80, a legislação exigindo proteção com chuveiros automáticos se tornou comum e muitas jurisdições promulgaram leis exigindo a proteção de hotéis já existentes com esses equipamentos.

Á 20 na Europa havia pouca legislação exigindo proteção por chuveiros automáticos nesse tipo de ocupações. Na realidade, um relatório publicado pela Fundação de Pesquisa de Edifícios do Reino Unido (BRE), no meio dos anos 80 ³, afirmava que as formas de precaução contra incêndio mais efetivas eram a detecção de fumaça inicial, a ação dos funcionários e hóspedes do hotel, bem como a qualidade da construção e manutenção edifícios.

No início deste novo milênio, ouvimos novas vozes na Europa dando apoio à proteção com chuveiros automáticos. Em debate recente na Câmara dos Comuns 4, no Reino Unido, um político local parabenizou o primeiro ministro porque desde 1º de julho de 2000 uma nova regulamentação inglesa exige que os prédios térreos com mais de 2.000m² devem incluir proteção com chuveiros automáticos. Jim Fitzpatrick, M.P., em um pronunciamento no Westminster Hall, em março de 2000, referiu-se aos chuveiros automáticos residenciais, dizendo que "são uma ferramenta para o futuro". Ele observou a experiência de Scottsdale no Arizona, "onde cada prédio contava com chuveiros automáticos. A redução nos últimos 10 anos tem sido dramática. Os prejuízos materiais estão 80% mais baixos e os prejuízos por danos com água baixaram 95%. E sequer uma vida foi perdida na cidade inteira."

Proteção com Chuveiros Automáticos
O Instituto de Segurança contra Incêndios Residenciais diz que "chuveiros automáticos são fundamentais na segurança contra incêndio de hotéis"5. De forma similar, existe um consenso entre as grandes cadeias multinacionais de hotéis, como o Four Seasons, Hilton, Marriott, Ritz-Carlton, Sheraton e Westin, que exigem obediência aos rigorosos critérios de segurança contra incêndios, em muitos pontos ultrapassando o que a NFPA requer em sua norma NFPA 101®. As redes Meliá, na Espanha, e Accord, na França, também estão colocando chuveiros automáticos em alguns de seus mais novos hotéis para negócios.

Um chuveiro automático não só responde mais rápido a um incêndio que os bombeiros, ou que uma brigada de incêndio, mas também o faz de forma efetiva, eliminando o fogo geralmente no próprio lugar de origem, e limitando a produção de gases tóxicos de combustão. É amplamente reconhecido que os chuveiros automáticos não só protegem a propriedade, mas também salvam vidas.

Como resultado do número de incêndios em hotéis ocorridos nos EUA no início dos anos 80, o governo americano aprovou em 1990 uma nova legislação de segurança contra incêndios para hotéis e motéis. O objetivo dessa lei é salvar vidas e proteger propriedades aumentandpo a segurança nesses estabelecimentos. A lei obriga que funcionários públicos federais em viagem oficial hospedem-se em acomodações que aderiram às exigências de segurança de vida da legislação. Ela requer que hotéis e motéis com mais de três pavimentos sejam equipados com chuveiros automáticos e detetores de fumaça em cada apartamento.

A lei está funcionando. Até agora, quase 28 mil hotéis e motéis cumpriram suas determinações e estão registrados na lista padrão de Hotéis e Motéis, que pode ser obtida junto à Administração de Incêndios dos Estados Unidos.

A Proposta Norte Americana
A norma NFPA101® - Código de Proteção à Vida®, que é publicada pela NFPA Internacional, oferece o que é considerado as informações mais completas para garantir níveis aceitáveis de segurança contra incêndio e de vida em edifícios. Ela forneceu a base para a maior parte das regulamentações de segurança de vida e contra incêndios dos Estados Unidos e Canadá, portanto é uma boa fonte para comparação.

A norma NFPA 101® exige proteção com chuveiros automáticos em todos os hotéis novos e para os já existentes, exceto aqueles com até 23 m, onde todos os quartos de hóspedes tenham uma porta que se abra diretamente para fora do prédio ou para um corredor de acesso externo. Desde 1994 são exigidos chuveiros automáticos de resposta rápida, ou chuveiros automáticos residenciais, que abrem mais rapidamente do que os chuveiros automáticos padrão. Sistemas de detecção de fumaça no corredor não são exigidos nos prédios com chuveiros automáticos, mas cada quarto deve estar protegido com um detector de fumaça independente (detector com fonte de alimentação própria e alarme embutido no sensor) que não necessita estar conectado ao sistema de alarme de incêndio do prédio. Esta proposta considera que, mesmo sendo os sistemas de chuveiros automáticos mais efetivos e superiores aos detectores de fumaça, eles podem não ser rápidos o suficiente, sob o ponto de vista da segurança de vida, para extinguir o fogo no momento certo, antes que surjam condições insustentáveis.

O evento inicial esperado durante um incêndio em um apartamento de hotel é o acionamento do detector de fumaça e seu respectivo alarme dentro do apartamento, alertando o hóspede para deixá-lo pela saída mais próxima. O hóspede também pode acionar o sistema de alarme do edifício, ativando as botoeiras de alarme próximas aos extintores ou aos hidrantes. Isso também pode ser feito automaticamente pelo sistema de chuveiros automáticos quando um dos chuveiros automáticos do apartamento for ativado. A norma NFPA também requer que todos os apartamentos sejam protegidos com portas de fechamento automático. A grande maioria dos incêndios em apartamentos de hotéis protegidos com chuveiros automáticos não se propaga além do recinto de origem.

Vários estudos têm demonstrado que grande parte da população não atende a alarmes de incêndio, preferindo acreditar que são alarmes falso. Isto se deve aos vários tipos de alarmes existentes e aos vários sons de alarmes. Para minimizar a possibilidade de mal entendidos a norma NFPA 101® exige uma comunicação verbal de emergência em hotéis acima de 23m de altura. Alarmes visuais são exigidos em áreas comuns e em um percentual de quartos de hóspedes. Extintores de incêndio são exigidos, mas mangueiras de incêndio não o são em edifícios com chuveiros automáticos. Conexões para mangueiras para uso dos bombeiros também são exigidas e geralmente instaladas nas saídas do vão das escadas. Nos mais saguões de entrada mais modernos pode ser necessária a instalação de sistemas mecânicos de exaustão de fumaça.

De acordo com a norma NFPA 101® geralmente são exigidas, no mínimo, duas saídas independentes em cada andar. Um apartamento que ultrapasse 185m² exige duas portas de saída independentes. A distância a percorrer entre o quarto e o corredor não deve ultrapassar 23m, ou 38m se o prédio estiver protegido com sistema de chuveiros automáticos. A distância a percorrer da porta do corredor de qualquer apartamento até a saída mais próxima não deve ultrapassar 30m, ou 60m se for um prédio com chuveiros automáticos.

Em prédios com chuveiros automáticos, a área anexa à escada deve ser capaz de conter o fogo por uma hora. Não são exigidas ante-câmaras, pressurização ou poço de ventilação para as escadas.

A Proposta Européia
Em 1994 a Confederação de Associações de Proteção contra Incêndios da Europa (CFPA-Europe) publicou um documento analisando os problemas especiais de segurança contra incêndios em hotéis e sugeriu propostas que iriam aumentar substancialmente a proteção contra incêndios nos hotéis em todo o continente europeu 6. Este relatório indicou que, de acordo com pesquisas feitas no Reino Unido, a probabilidade de morte em hotéis é três vezes mais alta do que em edifícios residenciais. A CFPA européia reconhece que os pequenos hotéis do passado estão sendo suplantados por grandes cadeias de hotéis com centenas de quartos, milhares de ocupantes e uma larga combinação de usos. Por exemplo: o hotel de 11 andares em Zaragoza, Espanha, onde um incêndio iniciado na cozinha matou 76 pessoas e feriu 113, em 1979.

Como regra geral, os requisitos de evacuação são mais exigentes na Europa. A distância recomendada para uma saída é de 35m. Como nos regulamentos dos Estados Unidos, os corredores sem saída não devem exceder 10 m. Para hotéis com mais de três andares, são exigidas duas saídas. O acesso para a escada de incêndio deve ser por uma ante-câmara e o poço da escada deve ter uma abertura manual ou automática no topo, para fazer a exaustão da fumaça. É recomendado ainda, uma ante-câmara no saguão dos elevadores. O corredor dos quartos de hóspedes deve estar subdividido com compartimentos de fumaça a cada 30 m.

Detecção de incêndio é recomendada por toda parte, mesmo em hotéis pequenos. O sistema de alarme de incêndio deve atingir pelos menos 75 decibéis nos quartos, de forma que os hóspedes possam ser alertados. Como nos Estados Unidos, também é reconhecido que este nível de ruído não é ideal se feito somente com sirenes no corredor. Um sistema de comunicação verbal de emergência também é recomendado, enviando mensagens em vários idiomas, no caso de um incêndio.

As recomendações para o controle de fumaça do saguão e para os porões, estão baseadas nos princípios de exaustão da fumaça. Mangueiras de incêndio e extintores também são recomendados. Assim como no Estados Unidos, existem critérios para o acabamento interior do prédio, sinalização de saída, iluminação de emergência, dispositivos de alarme de toque, re-chamada do elevador e protocolos de pré-planejamento e manutenção.

Atualmente não existe consenso regulamentando a proteção com chuveiros automáticos. Em relação a uma lei recentemente promulgada no Reino Unido, a Itália, por exemplo, exige chuveiros automáticos em hotéis com mais de mil hóspedes e na Holanda a proteção com chuveiros automáticos pode ser exigida em hotéis acima de um andar, se as limitações da área de compartimento do fogo forem excedidas.

A CFPA européia, em reconhecimento ao sucesso que os Estados Unidos e as cadeias de hotéis têm tido com a proteção por chuveiros automáticos, recomenda que esse tipo de mecanismo seja usado nos novos hotéis com mais de dois andares. Também reconhece que o nível de segurança contra incêndios pode ser melhorado em hotéis mais velhos, com a implantação de chuveiros automáticos.

Tecnologia de neblina de água
Como cada vez mais sistemas de nebulização de água (water mist) estão sendo projetados, testados e aprovados para riscos leves, essa tecnologia pode encontrar um nicho atraente na proteção de hotéis. A Fogtec Fire Protection, uma fábrica alemã de sistemas de neblina de água de alta pressão, relata que a Marriott Corporation decidiu proteger o Hanbury Manor Hotel e o Country Club, a 40 Km ao norte de Londres, com seu sistema. O hotel tem cinco andares, 105 quartos e instalações cinco estrelas de valor histórico. O pequeno diâmetro do encanamento de aço inoxidável usado no sistema de water mist evidentemente deu a essa tecnologia uma vantagem sobre a proteção com chuveiros automáticos de resposta rápida.

Embora este seja um desenvolvimento interessante, que certamente será considerado pelos engenheiros de proteção contra incêndio, permanece o fato de que o sistema de nebulização de água têm sua maior aceitação de navios, incluside de navios de turismo7. A Lista de Equipamentos de Proteção contra Incêndio do Underwriters Laboratories dos Estados Unidos, o Guia de Aprovação Factory Mutual (EUA), a Lista de Produtos Aprovados pela Certificação de Prevenção de Perdas do Reino Unido, e alguns dos laboratórios líderes em testes no mundo, já aprovaram nebulizadores de neblina de água. Atualmente os chuveiros automáticos GW 8 , da Dinamarca, e Tyco-Grinnell 9 , dos Estados Unidos, foram aprovados e podem terminar sendo usados na proteção de hotéis, sob estrita vigilância dos fabricantes. A Fogtec está atualmente sendo submetida a testes de aprovação pela Factory Mutual.

Outros desenvolvimentos
A edição 2000 da norma NFPA 101® adotou a alternativa de submeter suas exigências prescritivas a projetos baseados em desempenho.10 Esta opção resume um processo que pode ser usado para determinar se as características de um projeto satisfazem as metas de segurança contra incêndio especificadas no código. A intenção é permitir maior flexibilidade aos projetos. Propostas semelhantes estão sendo implantadas na Austrália, Inglaterra, Japão e Nova Zelândia.

A Europa também começou a mover-se nesta direção. O Centro para Normalização Européia - CEN, através de seu Comitê Técnico aprovou em 1999 uma resolução para desenvolver normas para a identificação de riscos de incêndios e aumentar a segurança ao fogo. Uma das estratégias adotadas é considerar as normas que utilizam uma abordagem com base em desempenho. Isso significa que, até onde as autoridades competentes permitam, os engenheiros de proteção de incêndio, independentemente da localização de um projeto e dos códigos regionais de incêndio pré-estabelecidos, irão utilizar modelos e técnicas de engenharia de proteção de incêndio para obter a segurança contra incêndios em hotéis e outras ocupações.

1.Schaenman, P.S. e Seits, E.F. - Conceitos Internacionais em proteção de incêndio, publicado por TriData, Arlington, VA. EUA, 1993.

2.MGM Grand Hotel em Las Vegas em 1980, onde 86 pessoas morreram e 679 ficaram feridas e o Dupont Plaza Hotel em Porto Rico em 1986, onde 97 pessoas morreram e 146 ficaram feridas.

3.Williams, AW & Hopkinson, Fatores determinantes de perigo de vida em incêndios em edifícios residenciais, Parte 1 Hotéis e Pensões, publicado por BRE e CRC, Londres, Janeiro de 1986.

4.Transcrição de um debate na Câmara dos Comuns em 28 de julho de 2000 onde Jim Fitzpatrick, M.P. falou sobre as mortes por incêndio

5.Primeira Operação de Segurança de Vida (OLS), que agora é o programa básico do Instituto de Segurança contra Incêndio Residencial.

6.CFPA Européia, Segurança de incêndio em hotéis: Exigências para a Europa, amplamente publicada pelas muitas associações de proteção de incêndio européias, em fevereiro de 1994.

7.Também existem diversas aprovações de sistemas de neblina de água para proteção de turbinas de combustão fechadas, maquinaria espacial, processamento de líquidos inflamáveis perigosos e de perigos normais em ocupações grupo 2 - NFPA 13.

8.Lowflow K15 modelos C e O para proteção de perigos leves em ocupações pelo Guia de Aprovação FM datado de setembro de 2000.

9.Esguichos para tipo AM6 (corredores), AM11 (cabinas) , AM22 (espaços públicos), e AM24 (Shopping e áreas de armazenamento), pela Lista de resultados da UL em acordo com a Organização Internacional Marítima (IOM) Resolução da Assembléia A800 (19) para proteção com chuveiros automáticos equivalente a regulamentação SOLAS II-2/12.

10.NFPA 101® edição 2000, capítulo 5.

11.Resolução BT C298/1999 relativo a CEN/TC 127- Proteção Contra Incêndio em Edifícios.

Fonte :
NFPA Journal en Português
Junho/Agosto 2001
Por Jaime A. Moncada, P.E.